Vínculos familiares não são necessariamente de amor – Um relato real
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Vínculos familiares não são necessariamente de amor – Um relato real
Família e Relacionamentos

Vínculos familiares não são necessariamente de amor – Um relato real

Psicóloga Jóice Bruxel
escrito por
Jóice Bruxel
7 min de leitura
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Um breve relato sobre uma história de não amor real:

Vou começar este texto relatando um desabafo. O nome utilizado aqui é um nome fictício, para a preservação da identidade de minha paciente (que permitiu que eu escrevesse este texto).

Fernanda, em uma das nossas sessões, muito ansiosa e desconfortável, trouxe uma questão, que segundo ela, estava engasgada em sua garganta há muitos anos: o fato de não sentir amor pela mãe.

Vou relatar o relacionamento com a mãe de forma breve, apenas para contextualizar:

Fernanda não conheceu o pai, após nascer, sua mãe a deixou com a avó, pois queria curtir a vida e a juventude, e acreditava que isso não era possível ao lado da filha, pois a considerava um atraso de vida.

Ela não foi desejada por sua mãe, mas foi desejada por sua avó, e inclusive foi a avó que não permitiu que ela fosse abortada.  Fernanda passou muitos anos sem ver a mãe (que estava se aventurando pelo mundo afora), sem nenhuma notícia de seu “paradeiro”. Até que um belo dia, quando já tinha treze anos, sua mãe apareceu.

Fernanda conta que em um dia de inverno, enquanto a sua avó preparava um chocolate quente para ambas, tocou a campainha de uma forma “impaciente” e “escandalosa”. Ela prontamente foi atender, e quando abriu a porta viu uma mulher, maltrapilha, chorando muito e a chamando de “filha”. Imediatamente, Fernanda chamou a sua avó (a qual chamava de mãe), que também caiu em prantos ao ver “aquela mulher” que estava na porta. Era de fato, a mãe de Fernanda.

A mãe de Fernanda estava com uma aparência suja, com um odor forte por não tomar banho há dias. Ela estava sem nada, de mãos vazias. As suas posses eram somente a dor e o arrependimento.

A avó chamou a mãe de Fernanda para entrar, e imediatamente a encaminhou para o banho. Após sair do banho, com roupas emprestadas e improvisadas, ela abraçou a filha e chorou desesperadamente por alguns minutos, que para Fernanda, mais parecerem uma eternidade.

mulher com medo

Fernanda relata ter, naquele momento, enquanto estava envolta por aquele abraço, se sentido confusa, com nojo, com raiva, com pena. Não conseguia identificar os sentimentos, era um misto de tudo, mas ao mesmo tempo, de nada.

Era um abraço apertado, porém vazio.

Após este dia, muitos dias se passaram. Na verdade, anos. Sua mãe passou a morar na mesma casa, mas soando com uma completa desconhecida. Esta se dizia arrependida de suas escolhas e decisão de abandono, contou histórias horrorosas de relacionamentos abusivos que teve ao longo daqueles anos, de violência, envolvimento com drogas e prostituição.

Mãe e filha se aproximaram, aos poucos e conviviam de uma maneira razoavelmente tranquila. A mãe de Fernanda foi retomando a vida aos poucos, sendo que estava emocionalmente estraçalhada e financeiramente falida. Começou do zero, mas conseguiu dar a volta por cima.

Fernanda, a mãe e a avó moraram juntas até Fernanda sair para morar com um rapaz, aos 19 anos.  Elas mantinham contato, mas o alicerce desse contato era a avó, e após o falecimento da avó, 6 anos depois, mãe e filha deixaram de se ver e se falar com frequência.

Fernanda diz que se sentia pressionada, sufocada com as cobranças de amor e de carinho da mãe. Ela relata ter a perdoado, mas diz que nunca conseguiu ver nela uma figura materna, pois o vínculo materno dela era somente com a avó, ou “mãe de criação”, como ela mesma a chamava.

Por não conseguir suprir os desejos da mãe, e por isso causar extremo sofrimento e de uma certa forma, até, culpa,  ela optou por se afastar.

No presente, 10 anos de pouco contato com a mãe,  Fernanda diz não conseguir amar a sua mãe e se sente culpada por isso. Diz que a falta de amor pela mãe é um tormento que ela não consegue superar. É um fantasma, algo que de vez em quando, volta para assombrá-la.

Ela acredita que por ser a sua mãe, sangue do seu sangue, a mulher que a gerou, deve amor a ela, mesmo tendo sido rejeitada por ela. Mesmo, segundo ela, ainda carregando o peso da rejeição, quando olha em seus olhos ou sente o seu abraço.

Fernanda não sente amor pela mãe, não sente carinho e nem quer ter ela por perto. Existe na verdade, uma ausência de significado em relação a sua mãe. Tudo o que ela consegue sentir, é saudade e falta de sua avó. Mas ela sente culpa. Se sente negligente. Porque muitos dizem que ela deveria amá-la, porque afinal de contas, ela é a “mãe” dela.

Vínculos são construções. Não se culpe por não amar!

menino sozinho

Este breve relato eu estampei para que você pudesse visualizar e tirar as suas próprias conclusões, e também fazer os seus próprios questionamentos sobre a questão do vínculo.

O que você precisa ter em mente é:

Se você não ama algum parente seu, não se culpe! Laços sanguíneos não são, necessariamente, laços de amor.

E não há nenhum problema nisso!

O amor não é um sentimento, ou estado de transe, o amor é uma construção. Nós não nascemos emocionalmente vinculados aos nossos pais, aos nossos filhos ou com qualquer membro familiar, nós criamos vínculos no decorrer de nossa existência. Ou não criamos. Simples assim.

Se não criarmos vínculos emocionais, ou melhor, se não construirmos vínculos e estes não se solidificarem, a questão sanguínea pouco importa. Há uma ligação, obviamente, mas apenas uma ligação genética.

Neste contexto, a questão biológica não tem nada a ver, propriamente, com o amor.

Se quem te gerou não se envolveu emocionalmente com você e construiu um vínculo afetivo, sólido, forte, incondicional, de amor, de respeito, e de carinho, é muito provável que você não ame esta pessoa, e por mais que isso pareça assustador, é natural.

Vejo filhos que não amam pais, vejo pais que não amam filhos, vejo famílias que se toleram e que carregam dores veladas de não amor pela eternidade. É preciso enfrentar. Não se culpar é um bom começo.

Nem sempre amamos quem está do nosso lado, nossos pais, nossos irmãos, nosso “sangue”, porque em primeira e última instância, o desejo de todo ser humano é ser amado. Se não somos amados, não amamos.

Todo e qualquer vínculo é bilateral. Vínculo implica necessariamente, reciprocidade.

Não tem como se vincular com o nada, aonde não existe nada do outro lado. Uma ponte, por exemplo, precisa de dois lados para ser construída. Assim é também o vínculo.

Se não existem dois lados, não há possibilidade de ligação.

mãe de menina

Não é preciso amar todas as pessoas, é preciso reconhecer quem você ama de verdade!

Outra pessoa me falou há uns dias atrás: “fulana é minha irmã, mas é estranho, é como se eu não conhecesse ela, porque eu não tive muito convívio com ela, não sei muita coisa sobre ela e nem ela sobre mim”.

O engraçado é que essa pessoa verbaliza que ama a irmã que admite nem conhecer.

Como amar o desconhecido, sendo que o que você desconhece não possui valor significativo em sua vida? Como se vincular a alguém que não significa nada?

Talvez amar seja uma pressão social, e é por isso que o amor anda tão banalizado. Porque nos forçam a sentir, mesmo quando não existe mínima relação de convívio para isso. Quando não existe construção. Quando não existe nada.

Dizem que você tem que amar a sua família, independente de tudo, por carregar no seu corpo o sangue e a genética, porque não querem te falar que muito provavelmente você não ame quem te abandonou, quem não te amou, quem não te protegeu, quem te rejeitou, quem não se importou com você e quem não fez parte da sua vida, de uma forma ativa e incondicional.

Eu acho pouco provável a possibilidade de amar alguém que nunca esteve ao seu lado e nunca foi disponível pra você, ou que causou dor ou danos irreversíveis. Que lhe feriu, machucou,  ignorou.

Não se sinta culpado. Você não precisa carregar este fardo e também não precisa amar a todos. Esse amor generalizado é fantasia. É fantasioso.

Lembre-se: o vínculo e o amor são construções e sempre dependem de dois lados.  O seu sangue, por si só, não carrega amor!

menino flor na boca

P.S.: E agora, você se sente um pouco mais aliviado? 

P.S. 2: Se este texto lhe soou familiar, considere fazer psicoterapia! 

Jóice Bruxel
Psicóloga CRP-08/25350
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